Crise civilizatória (ou a noite do humanismo)

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Não. Não são as utopias que falharam – ou que saíram de moda. Foram os seus artífices que as assassinaram. São eles os responsáveis pelo desencantamento do mundo – e pela morte  da esperança. 

A depressão e a melancolia que recheiam e emolduram – na expressão de Freud – o  mal-estar na civilização, nessa passagem de milênio – ainda sob a ressaca da queda do “muro  da vergonha” –, não são resultado da ausência de sonhos, mas da incoerência e da hipocrisia de  seus manipuladores. 

Quanta miragem já foi vendida! Quanto delírio! Quanta ilusão! Quanta loucura, meu  Deus, em nome da “salvação”! 

Depois de tudo, do fracasso retumbante das “receitas” e das “fórmulas” – com as suas cartilhas desgastadas –, restaram os escombros e a frustração. A carcaça do tempo vazio e as  sequelas das promessas vãs. A fraude, o escárnio, a barbárie. A lama, a desventura, a traição. E  não era para menos! 

O que parecia “esquerda”, “vanguarda”, “progressismo”, no seu sinistro e desvairado  extremismo metamorfoseou-se no seu oposto (ou assim revelou-se em substância) – talvez  porque os extremos se tocam (ou são da mesma natureza). 

De simples “doença infantil” do comunismo, o “esquerdismo” – outrora já diagnosticado  por Lenin – converteu-se, com o passar das décadas, numa enfermidade atroz, degenerativa,  letal para todo o tecido social; metástase silenciosa e traiçoeira, tardiamente detectada (ou  ignorada), a sinalizar o estágio mais avançado da deterioração sistêmica – de que é produto (e  não antítese!).  

O que se julgava “feio”, refletiu (a contragosto) no próprio espelho. E os rótulos  imputados aos forjados “inimigos” transpareceram colados ao rosto – qual cortante imagem de  Pessoa –, como marca da sordidez tatuada na pele dos impávidos acusadores – com suas  mentiras, ludíbrios e esboçadas apologias a pesar-lhes sobre os ombros, torcidos e disformes, à  semelhança dos “prisioneiros” marmorizados, de Michelangelo. 

Sim. Foram os arrivistas de plantão, prostituídos pelas benesses do poder, que  desgastaram os sonhos e a esperança em um mundo melhor. E continuam a fazê-lo,  diuturnamente, tal qual falsos profetas, cinicamente autointitulados – da altura de sua  desfaçatez – “salvadores da pátria”, “prepostos dos excluídos”, “redentores da humanidade”. 

A sede de poder dos oportunistas de todas as cores – verdes, vermelhos, brancos,  pardos – não se confunde, porém, com a verdadeira “vontade de potência”, aspirada por  Nietzsche. Antes, é a sua própria negação; o seu inverso – de vez que aposta na servidão  programada e massificada dos fracos e incautos. 

O problema do Iluminismo não foi acreditar na Razão, mas em endeusá-la; em creditar lhe a fórmula do paraíso terrestre, como se o homem, na sua eterna indulgência moral – ante a ausência total do sentimento de culpa –, fosse capaz de se substituir – com sucesso – à natureza  e aos deuses. 

O século XX não foi, propriamente, o corolário triunfal daquele do “das Luzes” – como  projetado pelos filósofos e sociólogos ilustrados do passado –, mas a sua versão patológica,  decaída, temperada de guerras, de morte e de falaciosos dogmas. 

Não por acaso, o excesso de racionalidade conduziu a humanidade não à libertação e à  felicidade, mas ao vazio existencial e à carceragem de si mesma, capturada numa “gaiola de  ferro” já prenunciada por Weber, há cem anos atrás – só que agora sem portas e sem janelas. 

A democracia republicana nascente, prenha de esperanças em mais liberdade,  igualdade e fraternidade, tão logo deu à luz, ainda rebenta, foi capturada pelos sequestradores e assassinos de utopias, convertidos (em nome do povo) nos novos “donos do poder” – e do  destino. 

A ambicionada “cidadania plena” – credo e devoção de toda ficção iluminista – foi  solapada pela tirania opressiva do império totalitário da burocracia kafkiana, em seu mórbido e  impessoal despotismo, condenando de antemão o indivíduo comum – reduzido a súdito – ao silencioso e inexorável descarte – em cuja cova jaz, parco e insignificante, soterrado pelo  desdenho das frias e insensíveis estatísticas. 

Na mesma escala e partitura, os partidos políticos, saudados na origem como entes  representativos da vontade popular – meio de conquistas em prol da sociedade – metamorfosearam-se em fim em si mesmo; em organizações corporativas, autorreferentes – quando não, criminosas –, ávidas, tão somente, de prestígio e poder – seguindo a trilha tendencial já traçada por R. Michels, desde a virada do Oitocentos, de burocratização absoluta e de substituição da natimorta democracia por variantes nada republicanas (ou até cleptocráticas) de Governo.  

Aos “revolucionários” de hoje, unidos aos corruptos, aos traficantes e aos criminosos de  todos os matizes, restou a desfaçatez da “máxima” de que ética na política é um “valor burguês” (portanto, “desprezível”); como se o roubo dos impostos pagos pelo suor da classe trabalhadora  (que dizem representar) fosse um simples “detalhe” de ínfima relevância – e não uma parte  substantiva (e perversa) da mais-valia. 

Fato é que o “socialismo histórico” nunca passou de um capitalismo disfarçado,  terrivelmente monopolista, talhado pelo compadrio de interesses entre uma elite política corrupta e totalitária (dominadora absoluta dos aparelhos de Estado) e uma outra econômica,  dos seletos “amigos” do Partido no poder, a enriquecer conjuntamente em nome da “revolução  proletária”, ancorados na ilusão da instrumentalizada militância (e do povo em geral), sempre  crédulos das (espúrias) fabulações ideológicas e da oratória farsante de seus líderes – conforme  já denunciado por Dostoievski, desde o século XIX, em Os Demônios. 

Sintomático, pois, que no dia subsequente ao fim da União Soviética, em pleno vestíbulo  dos anos 90, tenham logo emergido em cenário – como que “por encanto” – os multimilionários  do recém extinto império (apelidado de “União Socialista”), com posses a fazer inveja aos  antigos czares – outrora destronados, justo, em nome do “povo” e da “sociedade sem classes”. 

Assim, no ocaso do vigésimo século D.C., o “admirável mundo novo” da ciência e da  técnica, da máquina e da abundância foi se revelando, em plena “era do conhecimento”, uma  impetuosa e inquietante comédia, patrocinada pelos ardilosos fitos da indústria cultural e pelas novas ideologias “milenaristas”, arraigadas nas certezas finalísticas da “Razão soberana” e na  teleologia absolutista do “politicamente correto”. 

Até o socialismo, para poder se promulgar sob o lastro de um projeto “superior” e  “factível”, precisou se afirmar com o rótulo de “científico”, desqualificando os demais  prospectos oponentes como falsos e pueris “idealismos infantis” – de vez que na contramão (segundo seus detratores) dos desígnios pretensamente já traçados da história. 

Na aclamada Modernidade, a Ciência, de simples forma de conhecimento – por mais que valiosa e revolucionária –, acabou se convertendo na “Verdade em si”, na medida de todas  as coisas, transformando-se, contraditoriamente – por “ironia dialética” –, na nova Religião, em  ópio do povo: só que sem Deus e sem Pátria. E “se Deus não existe – como alertado por  Dostoievski (em Os Irmãos Karamazov) –, tudo [passa a ser] permitido”, à medida que não há  moral sustentável (ou valores universais) sob a égide da ética niilista. 

Eis porque, mirando o retrovisor do tempo, depois de toda essa grande transformação (costurada porséculos), há de se perguntar, em sobressalto, parafraseando T. S. Eliot: para onde  escapou, enfim, a sabedoria, que perdemos para o conhecimento? E o conhecimento, que  perdemos para a informação? – e a informação que, cada vez mais, perdemos para a  desinformação (fake News)? 

Que mundo é esse, afinal, abarrotado de “ciência” e “racionalidade”, em que, sem  máscara, não se pode andar na praça; sem cota, já não se consegue acessar às oportunidades;  e, tão logo, sem um microchip implantado no corpo (e monitorado por satélite) não se terá  alcance a praticamente nada – nem à própria identidade?! 

E ainda, na moldura dessas angustiantes dúvidas apocalípticas: por onde transita a  Política (com “P” maiúsculo), que perdemos para a pantomima e a farsa? E o jornalismo isento e responsável, que perdemos para a militância facciosa e seletiva? Onde, por fim, o caráter e a  coragem, que perdemos para a hipocrisia e o medo? 

Esta é, em resumo, senhores e senhoras, a essência da crise civilizatória de nossa época!  O sombrio diagnóstico de nosso tempo – para parodiar o K. Mannheim – que expõe o  desabamento calamitoso e irrevogável do tradicional Humanismo – que alicerçou os pilares da  modernidade ocidental – e o norteamento a tempos lúgubres e violentos, de prenúncios apocalípticos. 

O homem moderno, apesar da máxima conquista da individuação, tornou-se escravo de  si mesmo. Após todo o avanço da Ciência, cedeu à sua animalidade perene. Usou as conquistas  tecnológicas e a ordem racional como cárcere da beleza e da poesia. Aceitou passivamente  reduzir-se à condição de mero bit de computador – de servo de sua própria criatura –,  “inovando” uma versão pós-moderna (e mais desumana) de escravidão. E como escravo  cibernético, sem alma – paradoxalmente em plena “era da informação” –, já não pensa, já não  sonha, já não ama. 

Quem diria que, depois da tragédia do holocausto, o nazifascismo reapareceria no  mundo travestido de “progressismo”; como uma onda irrefreável de pensamento único e de  movimentos violentos (ditos “populares” ou de “minorias”), promovidos (e financiados) pelos  investidores ocultos do “admirável mundo novo” e do “big brother” – em dimensões totalitárias  muito além das imaginadas por Huxley e Orwell! 

Até as pandemias, chanceladas pela OMS e pela ONU, passaram, intencionalmente, a  servir de “laboratório” para os experimentos fascistas de dominação das mentes e dos corações,  graças à disseminação triunfal do pânico e da intimidação. 

Para desilusão dos herdeiros da Escola de Frankfurt, esfacelaram-se as últimas fagulhas da dialética do esclarecimento. Já inexiste mundo da vida (da vivência comunicativa) – como  insinuado por Habermas –, capturadas que foram, pelo sistema (econômico e político  dominante), as últimas trincheiras da sociabilidade espontânea, com a invasão ilimitada das ferramentas de colonização da linguagem e dos sentidos, caiadas em versões mais atrativas e  inteligentes (smartphones), a penetrar os espaços mais recônditos da vida privada (outrora  resguardados), subordinando-os, definitivamente, à lógica da mercadoria e de seus inéditos e  insuspeitos fetichismos. 

Sim, tudo o que parecia sólido se desmanchou no ar – como previra Marx. As relações  humanas – como o amor e o medo – “escorrem em vão pelos dedos”, tal qual “relações líquidas”  – na cirúrgica (e tenebrosa) formulação de Bauman.  

A globalização, consumada como fato social, coercitivamente (na acepção  durkheimiana) aproximou os distantes e dissolveu identidades; padronizou o consumo e  empobreceu estilos de vida; desencaixou percepções e sentimentos e desterritorializou linguagens e nacionalidades. Impôs, literalmente, o peso do mundo – empiricamente presente – sobre todas as coisas, numa espécie de neoimperialismo do Todo sobre as partes – do Capital  onipotente e omnipresente –, numa versão trasladada ao paroxismo do barbarismo “civilizador” já denunciado por J. Conrad, em O Coração das Trevas. 

Tudo, enfim, concluída a longa e tempestuosa odisseia, tornou-se efêmero, fluido,  irrelevante. Escancarou-se, definitivamente, em toda a sua nitidez, a ontologia da  transitoriedade, em que tudo, em suma, não passa de frivolidade, “vaidade das vaidades” – como profetizado, há milênios, no Eclesiastes. 

Ao final da trajetória, depois de todas as conquistas da Razão e da Técnica, nada mais  resta que a surpreendente estupefação do Vazio! Do fracasso! Do mal-estar! Pois já não existem encantarias, vigílias, teleologias. Tampouco epifanias, adventos, revelações. Apenas o Ser e o  Nada, a relembrar a célebre (e crua) imagem icástica de Heidegger. O Homem nu, diante de si  mesmo, na sua miséria de sempre; na sua eterna e desconcertante pequenez; na sua absoluta  nulidade, que grita (sem entregar humildemente o espírito): Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?

Alex Fiúza de Mello. Professor Titular (aposentado) de Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Ciência Política (UFMG) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), com Pós-doutorado em Paris (EHESS) e em Madrid (Cátedra UNESCO/Universidade Politécnica). Reitor da UFPA (2001-2009), membro do Conselho Nacional de Educação (2004-2008) e Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Pará (2011-2018).

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